terça-feira, 1 de março de 2016

A VOZ DO AUTOR: SAMUEL DA COSTA

EM DIAS DE SOL E CALOR, EM NOITES DE TEMPESTADE E FRIO


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

 (Para Victória Butler Rodríguez e Mari Gomes)

Em dias de sol e calor
Minha alma serena 
Passeia livremente
Pela charneca em flor
Nesses dias de extrema felicidade
 Eu tenho sentimentos bons
Eu tenho pensamentos probos
Eu sou feliz
***
Minha alma leve
Navega serenamente
Pelo mar da tranquilidade
A brisa matinal oceânica
Faina o meu negro cabelo
E beija o meu rosto hialino
Eu vivo feliz
***
Em dias de sol e calor
Minha jovem alma aventureira
Não conhece mais limites
Percorre o mundo livremente
Encontra e abraça a vida
 Aceita o convite dela
Para um eviterno bailar
***
Em noites de tempestade
E de muito frio
Minha negra e cansada alma
Voa perdidamente
Pela negra noite sem fim
***
Em noites de tempestade e frio
Vagueio solitária e languidamente
Pelo mítico vergal em dor
Choro e sofro
Todas as dores do mundo
Pelo amor que se foi
Por tudo que não veio
E por tudo que nunca virá
***
Em noites
De ventos intempestivos e glaciais
Minha alma diáfana
Percorre o deserto sem vida
 Dentro de mim
***
Na alvorada
No dilúculo de um novo dia
A minha crença
De tê-lo ao meu lado
Esvaece por fim 
***
Na aurora de um novo dia
Vivo sem esperanças alguma
De viver dias melhores

LÓTUS NEGRA (TODA A ARTE RESUMIDA)


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

Há um grande deserto,
Dentro de mim!
Há um enorme vazio...
Impressionista!
 Dentro de mim...
Há um deserto liquefeito!
Pós-modernista...
Vagando dentro de mim.
***
Reúno!
Todos os poemas possíveis.
Que tenho dentro de mim!
Toda arte abstrata...
Que há em mim!
***
Há uma grande verdade abstrata.
Que ninguém vê...
Exilada em mim...
***
Reuni...
Todas as poesias impressionistas...
Possíveis!
Imagináveis!
Existentes dentro de mim!
Arte liquefeita distribuída, compartilhada...
Curtida e comentada!
Amada e odiada
No deserto do real
No mundo virtual
***
Reuni o que há de melhor!
Em mim...
Existe uma infinitude desértica!
Sintética...
Pós-moderna em mim...
***
Existe uma grande saudade!
Dentro de mim.
Daquilo que nunca vi...
Do que nunca vivi!


MUSA IDEAL (NEBULOSA GALÁXIA)


                       Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

 (Para Vanessa Martins da Maia)

És nebulosa galáxia
Infinda
Detentora de imortais mistérios
Tens incontáveis segredos
Mais que secretos
Que guardas dentro de ti
Habitas
O mais quimérico e hialino
Estro meu
 ***
Em horas extremas
És oceano revolto
Mar intempestivo
Globosfera incircunavegável
Território em chamas
Imponderável
Terra vulcânica
Intransponível
***
No continente vasto 
Possuis milenares desejos
Tens o doce aroma
Do cravo e do mel
Povoas
Os pensamentos
Mais obscuros meus



AUÊ (A DANÇA DO TORE)


 Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Ana Paula Kalantã Bezerra de Deus)
  
Escuto as vozes
Das florestas
Sou eu que canto e danço
O Auê
 Sou eu a clamar
Para os deuses deusas
Da minha ancestralidade
Por harmonia e paz
Para toda a humanidade 
***
Caramuru-Paraguaçu
 Pataxó Hã-Hã-Hãe
Caraíva
***
É o meu povo e a minha luta
Minha língua
E a minha terra
***
Cadê as terras dos índios?
Senhor bandeirante!
Cadê?
Onde foram parar?
O ouro?
A prata?
***
Tenho o Deus Tupã
Como testemunha
Sou Pataxó Hã-Hã-Hãe
Volto para a terra
Outrora roubada

QUANTOS MISTÉRIOS CABEM NO NEGRO OLHAR TEU


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

 (Para Vanessa Martins da Maia)

Quantos mistérios
Cabem no magnânimo
 Negro olhar teu?
O que escondes quando
A noite cai
E todos foram para o leito
 Dormir tranquilamente?
***
Já amanheceu um novo dia
 É hora de despertar
E ganha às ruas
De experimentar a luz do sol
 Minha querida
***
Mas quantos mistérios
Podem caber
No negro olhar teu?
Por quantos tortuosos caminhos
Percorresses meu bem
Até chegar aqui?
***
Quantos mistérios
Podem caber no magnífico
 Negro olhar teu?

EM MIL PEDAÇOS


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

Foram-se
E não voltam mais
Aqueles dias felizes
 E de um céu sem nuvens 
Que na distância
Via-te
Todos os dias
  E venerava-te por inteiro
***
Não...
Não habitas mais
No estro meu
No altar que construiu
Somente para ti
Minha divina Luna
Na verdade ele quebrou-se
Em nanos pedaços
E se perdeu
Para além do infinito
***
Agora pobre de mim
A vagar sem destino algum
Do nada
Para lugar algum
No deserto do real
Do cotidiano
***
Não...
Não voltam mais
Aqueles dias dourados
De felicidade
E de amor equidistante
Onde eras tudo
Na minha vida vazia

ESPERAS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Às vezes a espera é uma tortura o tempo passa e as coisas parecem devagar. Mas quando acontece algo maravilhoso você quer que passe devagar mesmo para aproveitar cada momento.
E lá se vai o tempo... O amor entra e mexe com tudo. Troca às coisas do lugar e o que estava em primeiro fica em segundo plano. E a gente tente se convencer: Tudo bem!
Mas não está tudo bem, metade de você quer fazer parte do outro. Aquele que chega e pede licença para ficar em sua vida. E claro você não resiste. Pois mais do que tudo, você sempre quis amor e ele o tem para lhe dar. O coração parece um adolescente, mas você já tem 35 anos de idade. O medo de sofrer lhe faz ficar confuso e mesmo assim você quer seguir adiante. E é isso que você não entende.
A razão se cala e os seus pés não sabem pra que direção ir. E tudo que o coração faz é amar e amar.
Você espera... Espera... São tantas esperas que tem medo de só ficar esperando e nada lhe acontecer. E aí, tudo bem? Não. Você quer uma resposta e não mais esperar.



SOBRE A LUZ DO SOL

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

O sol
Que reflete no mar
Quando a tarde cai
É o mesmo sol
Que hoje queima
Meus ais.
E sobre sua luz
Conduz-me em um interminável
Desejo de amor.
Perco-me no seu olhar
E sou completamente despida.
Você me abraça
E ali quero ficar;
Fora de mim
Já nem sei quem sou;
Se completamente sua
Ou somente
Um breve momento seu!


A TI PERTENÇO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Não me olhe assim desse jeito
Eu fico tonto
Há todo momento;
Você pega fogo
E eu fico assim
Meio bobo,
Você sabe bem
Eu fujo de mim.
Nada apaga esse desejo,
Loucura e encanto
Sem ter seu beijo;
E de repente
De mim esqueço
E em você eu penso;
Aí eu me procuro
E nada encontro
Além de ti,
E você sabe bem
Eu fujo de mim;
Bobo, eu fico assim,
Perdidamente querendo sentir
O que você não sabe fingir.
Não me olhe assim desse jeito,
Não me provoque,
Teu corpo me move
E eu as nove
Enlouqueço
E de mim me esqueço;
Sou outra e a ti pertenço!



TO SALT

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Salted earth
rejecting life

                 as known. Intense
                                    passers
                                    repeated lifes

Ordered
in tasks: we are earth
salty to lushness
          and to addiction
          we receive the sight
           of infinity.

(Marina Du Bois, versão)


SALGAR

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Salgada terra
rejeitando a vida

                       conhecida. Transeuntes
                                            intensos
                                            em vidas repetidas.

Ordenados
em tarefas: somos a terra
salgada ao viço
            e no vício
            nos é dada a visão
            do infinito.


CATCH SIGHT OF

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

           I catch the sight of earth
                                         woods
                                         fine smoke net

                                         far from the noise
                                         life multiplies

(I’m in the body,
strained in mismatch. I am
present in myself).

  (Marina Du Bois, versão)


AVISTAR

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

                  Avisto a terra
                             a mata
                             a tênue rede de fumaça

                                  longe o barulho
                                  multiplica a vida

(estou dentro do corpo,
tenso no desencontro. Estou

presente em mim mesmo).

FIRE

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

The fire’s repetition: blaze and flame
                                      to meet the earth.

On the resected grass crakles:
decript lord of fire.

Burns the west horizon
and unfolds in colors: repeat the fire
and melts the earth. Calcinates the body

(Marina Du Bois, versão)


FOGO

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Repetição do fogo: labareda e chama
                                ao encontro da terra.

Sobre a grama ressecada crepita:
decrépito senhor do fogo.

Queima o horizonte poente
e se desdobra em cores: repete o fogo
e derrete a terra. Calcina o corpo.


TO FALL

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

I take responsability
for the fall: the steps
                      bent
                        by the feet
                             stumbling.

The wind puts the body
in mismatch

                            (concreted days
                              in altars)

I fall through the trace’s levity
and invade the Page; I descend
the steps and below
reencount the whole.


(Versão Marina Du Bois)

QUEDAR

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Assumo a responsabilidade
pela queda: os degraus
                       dobrados
                           aos pés
                              tropeçando.

O vento colocando o corpo
em descompasso

                           (dias concretados
                            em altares)

caio na leveza do traço
e invado a página; desço
os degraus e abaixo

reencontro o todo.

SER DO “CONTRA”

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Ouvi ou li, não me recordo onde, nem quando, que Aquilino Ribeiro, certa vez asseverou: que era “ Contra tudo e contra todos”.
Desconheço se o foi; mas há episódios, na sua vida, que levam a crer que sim.
Todavia, sabemos, que nada: seja doutrina política ou filosófica; seja Arte ou Literatura, consegue reunir audiência “respeitável”, se não for: “contra”, anti, “ contra tudo, contra todos”.
Por regra, o intelectual é do “ contra”; não que haja, muitas vezes, motivos para o ser, mas porque conhece: ser do “contra”, aumenta a venda de livros, e é eficaz para arrebanhar “fans”.
Também é do “ contra” o operário oportunista; desse modo, sem esforço, em regra, alça-se na hierarquia sindical ou na hierarquia da empresa. Certo, que esta, apressasse a entregar-lhe o cargo pretendido, para emudecê-lo.
Mas ser do “contra” não basta para ter sucesso na vida: é preciso dar nas vistas; pôr-se em bicos de pés, como vulgarmente se diz, e principalmente: bradar.
Bradar, fazer barulho, é imprescindível, para ser famoso.
Com brados, os judeus, conseguiram que o procurador romano condenasse O inocente, sabendo que O era; e,  bradando, xingando, berrando,  a ala esquerdista e direitista do parlamento, consegue fazer-se ouvir e ganhar simpatia.
O humilde, o respeitador, o honesto,  que pesa seus atos, pela razão e pela Moral, dificilmente vai longe…Porque os que labutam nas trevas são mais unidos, mais camaradas…Já Cristo o dizia.
A conversa conciliadora. A cavaqueira delicada, que fazia a delicia de muitos, quase desapareceu da nossa coletividade. Agora, discute-se… Ser do “contra”, discutir, ser polemista, dá prestigio e até: “ inteligência”.
O povo, que não consegue raciocinar - grande manada acéfala, que em democracia ordena, - acredita sempre no que ouve: aos gritos, aos berros, aos brados…; e reconhece sempre autoridade e sapiência, à voz atrevida, que se eleva.
Mas ser do “contra”, discutir, bradar, ainda não é suficiente para o medíocre alcançar o desejado Olimpo.
É - lhe necessário: o escândalo.
A mass-media – que devia viver de notícias e opiniões, – só aumenta a audiência, com o escândalo.
O ambicioso, o falho de talento, precisa, é-lhe imprescindível, recorrer ao escândalo, para ser conhecido.
Escandaliza: no modo de trajar, com gestos e atitudes, fora do vulgar, desnudando-se, e exprimindo conceitos chocantes…que chocam cada vez menos.
Já poucos se escandalizam, seja com o que for: se o artista plástico apresenta “bezerro”, a crítica - para não parecer ignorante, - admira, e o público, repete, para dar ar de entendido. - Diz Unamuno, em: “Solilóquios y Conversaciones”, que: “ A crítica, costuma ser, de ordinário, o comentário da moda”… e raros são os que não querem estar com a moda…
Em matéria Moral e bons costumes, poucos se aventuram a comentar; receiam cair no ridículo; receosos de serem taxados de retrógrados; de velhos caducos… de ignorantes…
Ser do “contra”, bradar, e escandalizar, é o meio seguro do “Zé-ninguém” parecer ser “alguém”; ter acesso aos meios de comunicação e tornar-se conhecido nas Artes, e quantas vezes, até, na ciência! …


CAMILO NÃO PODE SER BIBLIOTECÁRIO, PORQUE GOSTAVA DE MULHERES...

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Estamos no ano de 1858. João Nogueira Gandra, falecera a 5 de Dezembro, deixando o lugar vago, no Biblioteca da cidade do Porto.
Camilo Castelo Branco pensou que seria ocasião ideal para obter rendimento certo, e habilitou-se ao cargo, de bibliotecário. Para isso solicitou ao deputado José Barbosa da Silva, seu amigo, que o recomendasse junto do Governo.
O lugar era cobiçado por muitos, que tinham a seu favor, diploma, atestando o “saber”, passado por uma Universidade.
Camilo era autodidacta, de vasta cultura. Frequentara a Escola Médica e o Seminário, mas não concluirá nada. A sua credencial: era de escritor de indiscutível mérito, romancista de grande sucesso; de primeira plana, na literatura portuguesa.
Alexandre Herculano, ao saber da pretensão do escritor, escreve a 19 de Dezembro de 1858, na primeira página, do periódico lisboeta: “ Jornal do Comércio”: “ (…) Camilo Castelo Branco é um dos escritores mais fecundos do Pais, e, indiscutivelmente, o primeiro romancista portugueses.”
E, asseverava, que a melhor escolha da Câmara portuense e do Governo, seria nomeá-lo para o cargo.
Mas Camilo tinha muitos inimigos. Não era bacharel, e havia ainda, o escândalo de se ter apaixonado por Ana Plácido – casada com o capitalista Manuel Pinheiro Alves, – cunhada do filho da celebre Ferreirinha, viúva de António Bernardo Ferreira.
Inimigos do escritor, quiçá familiares dos pretendentes, ao cargo, escreveram cartas anónimas ao Presidente do Conselho, dizendo-lhe: que Camilo era mulherengo incorrigível, e detestado na cidade do Porto.
Concluindo: a 24 de Fevereiro de 1859, foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Porto, Eduardo Augusto Allen.
Em 1860, Camilo seria preso por adultério, visto viver na companhia de Ana Plácido (esposa de Manuel Pinheiro Alves,) com quem viria a casar, a 9 de Março de 1888, – depois da morte de Pinheiro Alves, – num prédio da rua de Santa Catarina, no Porto. Actualmente redacção do jornal: “A Ordem”.