terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A VOZ DO AUTOR: TEREZINHA MANCZAK

POEMA PARA NÃO MORRER

Por Terezinha Manczak (Blumenau, SC)
Flui das mandrágoras o efeito desmedido
De ternura e canto em meu peito afoito
Antevendo o destino das metáforas
 
Rumo ao núcleo do desconhecido
Aquarelas de manhãs inesperadas
Fragmentos de romances não escritos
 
Alma do mundo em corpo de espanto
Papéis de parede esmaecidos
Auroras rompem a casca das manhãs
 
Frutos e quimera de lavouras vãs
Na textura da dor, a pele arde
Rubro desejo e primavera
 
Espera:cedo ou tarde, o amor

"I TASTE A NEW LIQUOR: A HOMAGE TO EMILY DICKINSON'

Por Paccelli M. Zahler (ALB, Brasília, DF)

 tastE
           froM tankards
      In
      pearL  not
                         molten snowY

anD
         saInts little
     sCooped
                         turn drunKen
                          butterflIes
    reNounce
                        their dramS i drink
                                 mOre
                       seraphs swiNg

MESÓSTICO SOBRE 'FASCÍNIO'


Por Paccelli M. Zahler (ALB, Brasília, DF)


                                  

SILÊNCIO (mesóstico)

Por Paccelli M. Zahler (Brasília, DF)
                       baStou um olhar...
                   nada sIgnifico
         não sinto tua faLta...
               não chorarEi por ti
                         Não olharei pra trás
          não quero te enContrar,
                 não sentIrei saudades,
                       nãO chorarei por ti

DESASTRE DE MARIANA (mesóstico)

              Por Paccelli M. Zahler (Brasília, DF)

                             Dilma na COP21

                            mEncionou Mariana pois

                  o governo eStá

                             Agindo para

                    reduzir oS danos do maior

              desastre ambienTal

                     da históRia na bacia

                   do rio docE





                              Danos ambientais, 

                      populaçõEs em risco.





                              Mencionou que

                    o governo Age

                            paRa

                         reduzIr

                             dAnos e

                            puNir

                         severAmente

FASCÍNIO

Por Vânia Moreira Diniz (ALB, Brasília, DF)

Meus olhos se fecham,
Minhas mãos procuram
Meu corpo treme
sensações se multiplicam...
À procura do teu amor, 

A vida parece extinguir-se,
Lucidez fugindo docemente,
na alucinação do prazer,
Desejo intenso e ilimitado,
Doçura a nos libertar.

Troca de carícias,
A povoar a alma de sonhos,
Nossos corpos a pedir carinhos,
Sensualidade provocante
em luxúrias poderosas.

A penetração enlouquecedora,
Orgasmo a liberar o prazer,
O encanto e o fascínio,
Oferecimento sedutor,
gemidos eloqüentes

Paixão!

DÚVIDAS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Dúvida anteposta em verdades.
O rumor do elevado momento
na concretização do nada: mal feito
                                           malfeitor.

Benefício e dúvida. A ordem artificializa
mundos inconstantes. Verdades ignoradas
em discursos. A mentira instila a dúvida
no descompasso.


PREFERIR

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

A preferência apresentada
                 na alteração de cores
                                     e traços:

destroços do navio
    casco submerso
                      boias
                   e botes

             mulheres crianças

          e ratos.

DESEJOS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Ao corpo é dado
desejo
jogo
joio
sina
destino

desejos desenvolvem o sentido
da entrega na conquista.

ao desejo é dado o corpo
consentido: não consentir
martiriza a carne.


ALVOS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

almejo a vida: alvejo
                       a caça

descanso sob a árvore
a ser derrubada

no ar a sensação
da perda

          apedrejo a vidraça
          e em cacos
          reflito
          ao dia: vida
                     condensada
                     em alvos

                     inatingíveis.

UMA CIDADE ENCANTADA

Por Ridamar Batista (ALB, Anápolis, GO)

     Minha cidade não é uma cidade, é um clã ou melhor uma tribo. Não temos língua pátria, temos um dialeto exclusivo e puro. Somos apreciados pelo mundo a fora como seres "DiouUU" ou seja, de outro planeta, porque entre nós pouca palavra basta e se for apenas um pedaço, aí sim, é que se fala tudo.
Falamos de várias maneiras, inclusive com as mãos e falamos muito alto, acho que o motivo, são os morros que abafam nosso som. Em nosso linguajar podemos encontrar muitas ramificações dialéticas, como por exemplo falar de trás para frente, falar a língua do P ou falar por sinais e neste campo entram, pequenos toques, piscar de olhos, trejeitos com a face, levantar a sobrancelha, cocar, lamber os lábios, tocar suavemente ou mesmo beliscar o outro, isso depende da circunstância.
Temos costumes diferentes, e, ao mesmo tempo, iguais .Existe um algo em comum que supera todas as expectativas. Cantamos, dançamos, fazemos festas homéricas ou simplesmente conversamos, sendo que uma coisa e outra ou tudo junto, é sempre o mesmo ato de ser feliz.
Por nossas calçadas enfeitadas de pedras multicoloridas, passaram e passam pessoas de todas as partes e de toda as condecorações, e, ninguém de nossa tribo levanta a cabeça ou a abaixa por tal transeunte. Somos sempre mais importantes.. Somos daqui.
Qualquer pessoa que ousar pisar o nosso chão sem pertencer ao mesmo clã, é sempre e para sempre chamado " gente de  fora". Somente o padre ( grande contribuidor para o aumento do clã) nunca fora chamado de fora. Respeito? Talvez um quê de hipocrisia, melhor com ele...
O médico também é pessoa colocada no pedestal. Para ele tudo e todos, sem jamais questionar um ato ou fato.
O que mais me encanta em minha cidade é o gosto comum pelos apelidos. Todo mundo tem um e nem se pode dizer no tal Bullying. É mesmo quase cordial, quase afetivo ter um apelido, por mais esdrúxulo que pareça. Fogueira, Ferrugem ou Fogoió, tudo se refere a quem tiver nascido com os cabelos ruivos, e, não foram poucos. Numa cidade como esta é de se admirar, porém, ninguém busca razões, apenas apelida e pronto.
Sabiá, Periquito, Ganço ou qualquer outro pássaro que por ventura fizer motivo, se torna por aqui em nome próprio. Gambá, coruja, Jegue, Jumento ou coisa parecida, todos estes apelidos são comuns. " Peidou,  cagou"... pobre moça, fora conhecida até se mudar, por este triste apelido que lhe fora concedido, por um momento de torpe diarreia em pleno cinema da cidade.
E para não falar dos tantos bobos que por aqui habitam... A bobos, se incluem todos que não fazem parte da maioria extremamente culta, poética ou boêmia, que formam a massa. E estes conhecidos por " uma parte no canteiro" ou um mil reis na nota", não me perguntem nunca o que, isso quer dizer. Só ouvi, nunca entendi.
Numa tal sintonia intelectual vive esta gente que ao longo de uma vida dois amigos se falavam por meio de Charadas. Eram compadres, amigos e eternos companheiros de pescaria, cachaça e cigarros. Um dia voltando de uma desta tais pescaria um dos dois ao chegar próximo da esquina de suas casas disse:
______Ultimo cigarro da pescada.
Um foi para um lado e o outro para o oposto.
Lá pela meia noite, o compadre que ficara calado, se levanta da cama e sai de casa. Bate a aldaba da casa de seu amigo e quando este se levanta para atender o compadre lhe pergunta:
______Quantas?
Em charadas se faz uma frase e se diz o número de sílabas, daí o outro tem que responder uma palavra que coincide com o número de sílabas e o resultado da frase. mas naquele momento não havia Charada. Era apenas uma despedida.
____Quantas?
O compadre que dissera a despedida" Ultimo cigarro da pescada" ficou sem entender nada. Daí ou outro amigo lhe explicou:
______Não consigo dormir. Já tentei de tudo, mas você não me deixou o número das sílabas.
Risos, explicações... tudo resolvido, não era uma charada.
Tudo acontece em minha cidade.
Quando ela começou, vieram pessoas de alguns lugares e ali foram se assentando, fazendo a vida e fazendo fortuna. Tudo virava dinheiro. Os minerais eram de uma fartura incomensurável, os animais se reproduziam aos milhares, os vegetais floriam em profusão e os homens eram felizes e nunca mais dali se foram. Misturaram... misturaram. Até que formou o clã.
Beleza, força e coragem. Assim se fez o povo.
Tudo lá é festa, colorido e som. Todos são músicos, artistas e poetas.
Tem até quem diz que em minha cidade quando nasce um filho, se joga na parede. Se pregar é músico ou poeta e se cair é músico poeta ou boêmio.
As mulheres possuem uma beleza tão grande que chega a hipnotizar estranhos. usam roupas coloridas, adornos pelo corpo e cabelos longos. Dançam como ninfas e cantam o som dos deuses. De cabelos longos, lisos, anelados ou totalmente encarapinhados, são todas umas fadas. Dançam e cantam a luz da lua e enfeitiçam homens e deuses. São belas. Negras, brancas ou amareladas, todas se pintam para conquistar seus homens e estes ficam tão enfeitiçados que por elas choram a vida toda.
Tocam todos os instrumentos musicais, homens ou mulheres e saem pelas ruas a fazer serenatas ou cantatas, e ali compõem seus versos, suas músicas ao luar.
Amam o violino, a flauta, a guitarra e o piano. A música faz parte da  arte e da vida.
Os poetas abandam. Em toda casa se faz poesia e a poesia se faz em cada coração.
Os amores são quase eternos e quando não são ficam remorsos e perduram e vão se transformando em música ou poesia. Assim é minha cidade, um pouco da ternura dos índios, muito da sabedoria dos ciganos e algo do sensualismo dos europeus.
Um clã... uma tribo... uma cidade diferente das outras.
Quer saber onde está? no meio do coração de quem a busca.


SOARES DOS REIS, O MAIOR ESCULTOR PORTUGUÊS

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Em vésperas de Santo António, o atelier de Soares dos Reis, sito na rua de Camões, em Gaia, engalanava-se para receber visitas. Arrimavam-se as esculturas, cobriam-se de panos brancos, os esboços, penduravam-se vistosos balões, acendiam-se as velas e, para concluir, o artista suspendia enfeites, de papel crepe, de várias cores.
Sobretarde, ao declinar do dia, chegavam os convidados, entre eles, apareciam: Henrique Pousão, Souza Pinto, Tomás Costa, Teixeira Lopes, Marques Guimarães, Diogo José de Macedo.
Serviam-se, em bonitas bandejas de porcelana, doce de chã da “ Palaia” - estabelecimento que ficava na rua do Bonjardim, no Porto, - e biscoitos de Valongo; abriam-se garrafas de “Porto”, da Companhia Geral de Agricultura dos Vinhos do Alto Douro; e quando a festa atingia o auge, o anfitrião dedilhava, nas cordas de velho violão, trechos da “ Marcha de Luís XIV”.
Conversava-se sobre Arte, e de conhecidos artistas plásticos que residiam na Cidade da Luz; os que pretendiam estar à la page, liam e comentavam o folhetim de “ A Palavra”, onde experimentado jornalista, desassombradamente, desancava na política e nos políticos da capital.
Eram festas modestas, mas de intelectuais, onde imperava respeito e dignidade.
Tinha o escultor índole amarga, frontalidade que se confundia de grosseria e agressividade. Os íntimos - e pouco mais, - conheciam-lhe o coração terno e a apurada sensibilidade hipersensível.
Insignificante falta de atenção, frase não concluída, era bastante para o deixar em atroz ansiedade.
Tinha Soares dos Reis numerosos detratores. Contribuiu para isso, o jeito agreste e rude como se exprimia.
Frequentemente citava Boileau: “ Un sot, trouve toujours un plus sot qui l’admire”.
Ao analisar trabalho alheio, não se inibia de declarar, se não fosse de seu agrado: “ É uma borracheira! …”
Detestava os políticos, mormente os hipócritas, que para ele eram quase todos; considerava-se democrata e católico, mas poucas vezes ia à missa. Escrevia muito pouco e carteava-se ainda menos.
Em dias santos realizava longos passeios a pé- Ia a Paço de Rei, Quebrantões, Gervide e Lavandeira. Levava casaco comprido, bota-de-elástico, nada cuidadas, e cabelo desamanhado.
Fascinava-se com a beleza campestre, o sossego das bouças, o trinar dos passarinhos, o sussurrar embalador dos córregos e a beleza das flores silvestres que atapetavam os verdes campos de Oliveira do Douro.
Quando se apaixonou pela delicada esposa, mudou por completo. Mandou fazer, na Alfaiataria Rocha, bonito fraque e substituiu a bota-de-elástico, por modernas de cordão. Passou a cuidar o cabelo e amiúde frequentava o barbeiro.
Se o tempo não permitia andar pelo campo, recolhia-se no Clube Recreativo de Mafamude, jogando bilhar e dominó.
Numa hora de extremo desespero, que o levou ao suicídio, escreveu no papel de parede do quarto: “ Sou cristão, porém nestas condições, a vida, para mim, é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.”
Soares dos Reis - o maior escultor português nasceu em Santo Ovídio (Gaia), numa terça-feira, a 14 de Outubro de 1847. Foram seus pais, Manuel Soares Júnior - proprietário de mercearia, onde o filho era marçano, - e D. Rita do Nascimento.
Foi batizado na Igreja de Mafamude pelo Padre Francisco Ribeiro de Moura, e teve como padrinhos: Santo António e D. Ana Maria de Jesus.
Desde cedo mostrou tendência pelo desenho. Na escola (a do Cabeçudo) retratou, às escondidas, o professor, o Sr. Matos. Descoberta a falta de atenção, o mestre não lhe bateu, e terminada a aula andou a mostrar, admirado, o talento do aluno.
Pouco depois, os pintores Francisco José Resende e Diogo de Macedo, este último, avô da esposa de Soares dos Reis, ao conhecerem o extraordinário valor do rapaz, convenceram o pai a matriculá-lo na Academia de Belas Artes.
Entrou na Escola a 1 de Outubro de 1861; seis anos depois partia para Paris, como bolseiro do Estado. Devido à guerra franco - prussiana, deslocou-se, depois para Roma, onde na rua de S. Nicolau, 4, esculpiu o fabuloso “ Desterrado”.
Regressa à Pátria, em 1872, torna-se em 1881, professor da Academia Portuense de Belas Artes.
A16 de Fevereiro de 1889, suicida-se na sua casa da rua de Camões, em Gaia.
Casou a 15 de Julho de 1885, com D. Amélia Aguiar de Macedo. Do matrimónio nasceram: Fernando de Macedo Soares dos Reis, que faleceu com 27 anos (Estudou no Colégio dos Órfãos. Foi empregado da Foto - Bazar e do Banco Comercial do Porto. Era um entusiástico pelo Esperanto) e Raquel Soares dos Reis, que morreu solteira.

Quarenta e dois anos após a sua morte - em Portugal é assim que se tratam os artistas de nomeada, porque os outros morrem à fome, se não se tornam políticos à força, - concederam à viúva e filha, a pensão de mil e quinhentos escudos mensais, por despacho de 2 de Março de 1931, do Presidente Óscar Fragoso Carmona, como gratidão da Pátria à família do genial escultor.

CIDADE NUA

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Rute Margarida Rita)

Corpo incorpóreo
Em transcendência
Uma nota dissonante
Que destoa
Que trespassa
A realidade liquefeita
E pós-moderna
***
Viagem transcendental
Em terra nua
***
Corpo incorpóreo nu
Em desalinho
Que devassa
 Noturnos labirintos
***
São perdidas noites insones
Sem fim

INEXORÁVEL (MEUS SONHOS EM MIL PEDAÇOS)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Mari Gomes‎)

O teu silêncio sobre mim
Vale mais que mil palavras
***
São mil palavras imperfeitas
 Hialinas abstrações liquefeitas
 Belas letras não revisadas
Enclausuradas
 Em páginas em branco
***
Quem dera poder saltar
Lançar-me ao infinito 
E perpassar os astros
Alcanças a divina musa
***
Fazer-te feliz por alguns dias
Ou poucas horas
Nanosegundos de pura felicidade
Em poucas linhas abstratas

RAINHA VICTÓRIA (NAVEGO PELO MAR DA TRANQUILIDADE)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

 Para Victória Butler Rodríguez

Navego pelo mar da tranquilidade
Cheio de esperanças
Renovadas
***
Pois tenho pensamentos probos
 Pensamentos bons
Mesmo sabendo que tenho
Um longo e difícil caminho
Para percorrer
***
A minha abstrata arte
Já não conhece limites
 Criou asas
 Voo para além do cosmo infindo
***
Tenho um longo e tortuoso caminho
Pela frente
Mas sei que ela vai estar lá
A minha espera
Tão linda e prefeita
Como só ela sabe ser
***
Já não dói mais...
A minha negra arte tão carregada
De dor e sofrimento
Não existe mais
***
A minha negra dor se foi
Dobrou a esquina e desapareceu
Por completo em meio
A massa dissoluta
***
O crepúsculo eviterno
 Já não cega mais
Meus quasímodos olhos
 Não temo a negra noite eterna
Com seus mistérios infindos
***
Tenho o sono tranquilo
Pois sei que ela estará
Ao meu lado
Quando eu acordar pela manhã

VIOLETAS PAIXÕES

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Izabella Silva)

Com passos firmes
Veio ao meu encontro
***
Tinha brancas e imaculadas
Rosas nas mãos
Um belo sorriso nos lábios
Mil pedidos de desculpas
Para declamar
Chamando-me
Para um eviterno valsar
Sob a luz do negro luar
***
Veio até a minha surreal pessoa
Depois de muitas tempestades
 Com fortes ventos, trovoadas e raios...
De muita tormenta e dor
***
Veio como quem quis virar
A página das nossas liquefeitas vidas
 Por fim
Uns pedidos de desculpas
Lamúrias e lamentos
Na ponta da língua
***
Veio por fim
Como violetas paixões
A declamar uma breve
E inócuo poema pastoril de amor
***
Veio abstrato
 Vazio e oco
Em violetas paixões
E eu simplesmente lhe disse não

FÁH BUTLER (A QUARTA NOTA MUSICAL)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

Uma écloga de amor
Uma ignota canção pastoril
Em estado puro
Em tempos de paz
Em tempos de guerras
***
A celestial e intempestiva paixão
O lascivo amor sintético
O sibilino e abissal amor
Nanotecnológico
***
O amor abstrato e surreal
Em tempos de realidade líquida
Em tempos de realidade virtual
Em tempos de realidade liquefeita

LEANDRO GOMES DE BARROS

LEANDRO GOMES DE BARROS - Dia do Cordelista

Por Gustavo Dourado (ALT,Taguatinga,DF)

(Homenagem de Gustavo Dourado e da Academia de Letras de Taguatinga)

Leandro Gomes de Barros:
Na Paraíba nasceu
Na fazenda Melancia
O vate sobreviveu
Na cidade de Pombal
O seu nome inscreveu...

1865:
Em novembro, dezenove...
Em Pombal na Paraíba
O Leandro nos comove
Poesia de primeira
Sua poesia me move...

Criou o Canção de Fogo:
Foi dínamo da poesia
O cordel tem sua marca
Sua luz, sua magia
Registrou o seu talento
O que fez foi alquimia...

1918:
4 de março o dia
Vitimado pela gripe
Que matava à luz do dia
Influenza espanhola
Era o nome da porfia...

Fugiu de casa aos 11 anos:
Pelo padre maltratado
Vicente Xavier de Faria
Era o nome do danado
Perseguia a Leandro
Dava pisa no coitado...

O padre era seu tio:
Agia com violência
Leandro queria paz
Ser tratado com decência
Leandro, Cancão, Alfredo
Não é mera coincidência...

Fez centenas de cordéis:
Que merecem antologia
É poeta consagrado
Até pela academia
Sua poesia tem arte
Tem o caldo da magia...

História da Donzela Teodora:
Juvenal e o Dragão
A Órfã Abandonada
As Histórias de Canção
Rosa e Lino de Alencar
Leandro, vate do sertão...

Antônio Silvino, o Rei dos Cangaceiros:
A Filha do Pescador.
João da Cruz - O Boi Misterioso
Alonso e Marina...A Força do Amor
O Príncipe e a Fada, O Dinheiro
O Soldado Jogador...

A Batalha de Oliveiros e Ferrabrás:
A Morte de Alonso e a Vingança de Marina
A Mulher Roubada; A Vida de Pedro Cem
Criou A Princesa da Pedra Fina
Teceu A Prisão de Oliveiros
Com poética silibrina...

Leandro Gomes de Barros:
Poeta incomensurável
Foi um dínamo da poesia
Eternamente louvável
Hoje encanta no infinito

Mestre vate inigualável...

O PUDOR DAS CRIANÇAS

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Recostada na cadeira de trabalho, em contraluz, diante da camila, revestida de toalhinha cor de canela, que tapa a braseira de cobre – onde em frias tardes de Inverno, ardem brasas rubras, – a zelosa mãe, de agulha na mão, acerta os calções vermelhos, da filha amada.
Pelas extensas vidraças, viradas para a cidadela, penetra leve claridade, envolvendo tudo numa doce e deliciosa paz.
Luz desmaiada de fim de tarde de Verão. Lá fora, o céu azul, acarminas- se, esmorecendo lentamente, em violeta – sanguínea e luminosa poalha doirada.
Silêncio.
A pequena salinha adormece em doce penumbra. Tudo se desvanece num misterioso encantamento: o aparelho de TV; o armário, pintado de branco, arrimado ao fundo; a toalhinha cor de canela, a mãe; os calções encarnados…Tudo se esvanece, esfuma-se, perdido na luz acolhedora, de entardecer calmoso.
Vem da cozinha, intensamente iluminada, tilintar de vidros e metais; e paira no ar, adocicado e delicioso odor a chocolate. É a filha mais velha que tem o bolo no forno.
De súbito o repousante silêncio – convidativo à sonolência, – é rasgado por harmoniosa voz juvenil:
-“ Mãe!!! … Como se faz chantilly?”
Um sorriso de bondade aflora nos lábios finos da progenitora.
Depõe os calções encarnados, mais a agulha, sobre a mesa, e lançando meigo olhar para a filha – que de mangas arregaçadas, no limiar da porta, aguarda a esperada resposta, – diz:
- “Mistura manteiga com açúcar e bate muito bem…muito bem…muito bem…Depois…”
Afobada, de braços balanceando, boca a transbordar sorrisos chilreantes, olhos vivos, espertos, luzindo de felicidade, entra a caçulinha, em grande estardalhaço.
Beija de fugida a mãe; abraça-a afectuosamente, como querendo dizer: - “ Gosto muito de ti! …”
Espicaçada pela curiosidade, aos saltinhos, quase pardalita travessa, a menininha interroga, ansiosamente a mana querida:
- “O que estás a fazer?!”
Ninguém lhe responde….
Amuada, despeitada, triste, de olhos fixos no vácuo, fica pensativa, a folhear velho caderno escolar, de capa azul, de folhas enodoadas, por muito ter sido manuseado.
Pela escancarada porta de vidro da varanda, entra, trazido pela brisa morna, à mistura com ruídos da rua: guinchos infantis e risos festivos de crianças. São os filhos do doutor ou do Major?
Ao longe, muito ao longe, galos de voz esganiçada, anunciam que são horas de recolher….
A salinha, agora, é quase trevas. Na semi-escuridão reluzem, na carinha morena, os luminosos olhos castanhos da meiga garotinha, que permanecem parados, tristes e meditativos.
Por arte mágica, de repente, tudo ganha brilhos e rebrilhos e nítidos contornos. Foi a mãe, que vindo da cozinha, acendeu as lâmpadas.
-“ Vamos provar?” – Diz, como se a convidasse.
Nesse comenos, toca a campainha. Quem será?!
É a D. Flora, professora, amiga da dona de casa.
Dá repenicados beijinhos à menina e à mãe, e atira, com quatro dedos rechonchudos, beijos à que anda à volta com o bolo, que rescende.
Conta novidades: casamento da Néné; maroteiras do filho do Dr. Bento; a lotaria premiada, vendida na Praça da Sé…
- “Vem menina! …Vem provar!” – Insiste, mais uma vez, a mãe, explicando, à visita, que vão a banhos para Foz de Arelho.
Encolhida, envergonhada, enleada, de faces rosadas, avizinha-se; e esta sem reparar no rosto anacarado de acanhamento, levanta-lhe a vaporosa saia, deixando as calcinhas cor-de-rosa, à vista e a perna nua.
Constrangida, humilhada, por se ver descomposta diante de estranhos, a pequenita fica a balancear: a brincar com os dedos das mãos…Com os dedos dos pés…Acariciando os macios cabelos castanhos de reflexos doirados; mas as maçãzinhas do rosto, enrubescem-se de pejo.
A mãe é mãe. Não é “gente”. Despir-se diante dela, é normal…mas na frente de visitas…
Indiferente ao comportamento da filha, nem repara no acanhamento, e continua a conversar – num cavaquear de amigas.
Este quadro familiar, tão simples, tão singelo, tão sem importância, não seria merecedor de registro, senão fosse o embaraço da mocinha.
Os pais, por vezes, esquecem-se que os filhos cresceram…Deixaram de ser garotinhos.
Há mães que pedem a empregadas para darem banho aos filhos, e vestem-nos diante de amigas. Olvidando que o pudor das crianças deve ser respeitado.
 A cena que vos trago, ocorreu há muito e muitos anos, quando os meninos e meninas eram recatados.
Agora, o pudor, parece estar a desaparecer…
O “progresso” deve-se, em parte, ao: ensino misto, à liberdade paterna e mormente à nefasta influência do cinema e TV.
Essa á vontade, por si, não é má nem boa. Mau é quando descamba em libertinagem e desrespeito pelo corpo. 


VISITAR DOENTE: DEVER DO CRENTE E DO NÃO CRENTE

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Entre o reduzido número de amigos de meu pai, contava-se um frade.
Conhecera-o em soalheira tarde de Verão, quando foi encarregado de realizar reportagem sobre certo santo, de certa Ordem Religiosa.
E de tal modo ficaram amigos, que durante longos anos, visitava-o no seu conventinho.
Chegaram a trocar presentes e debater assuntos transcendentes, de interesse de ambos.
A amizade era notada por todos, e de tal jeito, que aos poucos tornou-se conhecido e amigos de quase todos os irmãos da comunidade, inclusivo o Superior e Provincial.
Um dia, a doença que o levaria à morte, atirou-o para Casa de Saúde, onde permaneceu semanas acamado e com poucas esperanças de vida.
Nas suas horas de solidão e desespero, pedia para telefonarem aos amigos, para que o fossem visitar, já que se sentia só, perdido e desanimado num quarto de hospital.
Apareceram familiares, principalmente o primo Júlio – sempre prestável, sempre pronto a fazer pequenos favores, e a visitar e animar doentes.
Além do Júlio, poucos mais apareceram…Os inadiáveis afazeres não lhes permitiam….
Lastimoso, contava aos filhos e à empregada, que, por tanto tempo haver servido a nossa casa, tornou-se membro da família:
 - “Parece impossível, nem o Frei X, que mora tão perto, apareceu…”
Mais tarde – no interregno que a doença lhe deu, – foi ao convento para visitar o amigo “atarefado”.
Não estava. Atendeu o porteiro, que prestimoso, foi chamar “um senhor padre”.
Ao abordar a hospitalização, meu pai referiu-se ao facto de Frei X, não ter aparecido, devido a não ter transporte disponível. (Desculpa que lhe deu, pelo telefone.)
Em resposta, ouviu:
- “Não tinha transporte?! … A Casa tem carro. Eu próprio o levaria, com muito gosto, no meu automóvel! …”
Uma das obras de caridade do cristão é visitar presos e doentes.
Que haja receio de confortar presos, compreende-se, mas que não se visite doentes, mormente conhecidos e amigos, é falta de Amor cristão e humanamente imperdoável.
O desprezo. A indiferença e principalmente a ingratidão, costuma doer mais que a doença, mesmo quando é grave e mortífera.