quarta-feira, 1 de março de 2017

ESTACIONAMENTO (2017)



(arte computacional)

DÁDIVAS

Por Vânia Moreira Diniz (Brasília, DF)

Quando o meu céu clarear,
Quando as nuvens se condensarem,
Quando a luz aparecer brilhante,
E as estrelas voltarem a cintilar,

Quando entender minha linguagem,
A falar de amor com naturalidade,
E procurar em meu coração a liberdade,
Quando puder olhar para o horizonte,

Quando fechar os olhos suavemente,
E mesmo assim enxergar as imagens,
Que fazem parte da minha história,
Quando sonhar com arco-íris novamente,

Quando entender a ternura de teu olhar,
E segurar tuas mãos retendo o calor,
Verificando que o desejo está próximo
E a razão parcialmente encoberta,

Quando puder sentir em meus olhos
O colorido da natureza absorvente,
E a energia dominar meu inconsciente,
Quando comentar a beleza do planeta,

Quando os elementos naturais me dominarem,
E puder novamente alcançar minha alma,
Tê-la entre as mãos e compreendê-la,
Sem a estranheza de nenhum momento,

Então estarei vivendo copiosamente,
Saboreando o fruto especial e deleitoso,
Usufruindo da vida todos os elementos
E redistribuindo as dádivas que me doaram.

GOLDEN EARRINGS

By Arjun Singh Bahti (Jaisalmer, Índia)

Golden rings in the ears, a thick moustache, and a colorful turban: this was the image of a perfect man in our society some years ago.
I had two golden earrings in my ears when I was studying at Jodhpur University in western Rajasthan. One day I noticed that whenever I entered the class, a group of girls always laughed at me. I asked them why. And there was a very funny reply. They told me that in South India, earrings are always worn by ladies. 
“You look like a girl,” a voice came from the group. Well, that was a big challenge for a boy who was thinking he was a perfect man. The girls came from South India, and they were studying here because their parents were working in Jodhpur. 
After some days I came back home. I told the funny story of the earrings to my grandparents. I told them what the South Indians thought about me. My grandfather became a little angry and said, “The man who does not wear earrings is, of course, a woman.” 
Well, I was a perfect man for my grandparents, having earrings. At the same time, the South Indian girls had a different idea about me. 
I took a decision and removed one of the earrings when I went back to college. I told my classmates that with a ring I am a man of tradition and without an earring, I am a man for a South Indian. But the mistake I made was that I removed the wrong one. 
I had no idea what mistake I had made. After some months when I was in Jaisalmer, a foreigner called me and asked me about the ring I had in one of my ears. I told him the whole story. And then I heard something that made me run away from the place. I rushed back home and removed the ring from my ear. Now, either I wear both of the rings or remove both of them. 
I came to know how different cultures have different meanings for different objects.

OS BRINCOS DOURADOS

Por Arjun Singh Bahti (Jaisalmer, Índia)

Brincos dourados nas orelhas, um bigode espesso e um turbante colorido: esta era a imagem de um homem perfeito em nossa sociedade alguns anos atrás.

Eu tinha dois brincos dourados nas minhas orelhas, quando eu estava estudando na Jodhpur University, na parte ocidental do Rajasthan. Um dia, eu percebi que toda vez que eu entrava na sala de aula, um grupo de meninas sempre ria de mim. Eu perguntei a elas o porquê. E tive uma resposta muito engraçada. Elas me disseram que, no Sul da Índia, os brincos eram sempre usados por mulheres.

 “Você parece uma menina”, disse uma voz vinda do grupo. Bem, aquilo foi uma grande  provocação para um rapaz que estava pensando que ele era um homem de verdade.  As meninas tinham vindo do Sul da Índia e estava estudando aqui porque seus pais estavam trabalhando em  Jodhpur.

Depois de alguns dias, eu voltei para casa. Eu contei a história engraçada dos brincos para meus avós. Eu contei para eles o que os indianos do Sul pensavam de mim.

Meu avô ficou um pouco irritado e disse:“O homem que não usa brincos é, obviamente, uma mulher.”

Bem, para os meus avós, eu era um homem de verdade usando brincos. Ao mesmo tempo, as meninas do Sul da Índia tinham uma ideia diferente a meu respeito.

Decidi tirar um dos brincos quando eu voltei para a faculdade. Disse aos meus colegas de classe que, com um brinco, eu era um homem da tradição e, sem um brinco, eu era um homem para o Sul da Índia. Mas o erro que cometi foi ter removido o brinco errado. 

Eu não tinha ideia do erro que eu tinha cometido. Depois de alguns meses, quando eu estava em Jaisalmer, um estranho me chamou e me perguntou sobre o brinco que eu tinha em uma das minhas orelhas. Eu contei para ele toda a história. E, então, eu ouvi algo que me fez perder o rumo. Corri para casa e retirei o brinco. Agora, ou eu uso os dois brincos ou nenhum.

Vi como diferentes culturas atribuem diferentes significados para diferentes objetos.


(Traduzido e adaptado por Paccelli José Maracci Zahler)

UMBERTO ECO (CORDEL)

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)

Umberto Eco da semiótica
Da estética medieval
A linguística, a ficção
O contexto cultural
Filosofia em voga
Multiversom literal

Semiólogo, filósofo
Ensaísta, professor
Romances e best-sellers
Na agenda do criador
Grandes livros escreveu
Com impulso inovador

Filho de Giovanna e Giulio
Nasceu em Alexandria
Família de 13 irmãos
No ser a filosofia
Pesquisa e linguagem
O texto na liturgia

1932
Dia 5 de janeiro
No Piemonte italiano
Deu o seu grito primeiro
Nasceu Umberto Eco
Um escritor timoneiro

Literatura na alma
A prosa do candeeiro
A busca da iluminação
O livro foi seu luzeiro
A mente esclarecida
Um artista por inteiro

Mentiras que Parecem Verdades
As Formas do Conteúdo
A Estrutura Ausente
De um escritor graúdo
Que quase tudo conhecia
E que amava o bom estudo

Em Turim, Bologna, San Marino
Destacado professor
Editor de cultura da RAI
Eterno pesquisador
Luminar da sapiência
Foi um livre pensador

Estudou Literatura
Filosofia Medieval
Amava bibliotecas
A essência cultural
Tinha milhares de livros
Verve intelectual

Foi militante católico
Depois veio o ateísmo
PHD em Turim
A língua no ativismo
Crítico da midiocridade
E do vão proselitismo

São Tomás de Aquino
Tese de doutoramento
Análise da cultura de massa
A crítica em seu pensamento
Com a alemã Renate Ramge
Expressou bom sentimento

Antologia de ensaios
"Obra Aberta" publicou
Gruppo 63, contracultura
Barthes o influenciou
"Apocalípticos e Integrados"
Muito bem comunicou

"Tratado Geral da Semiótica"
"Ilha do Dia Anterior"
"O Cemitério de Praga"
Na arte do pensador
"A História da Beleza"
Na senda do escritor

"A Misteriosa Chama da Rainha Loana"
"O Pêndulo de Foucault", "Baudolino"
"Número Zero", última obra
Deu seu toque cristalino
Como Se Faz Uma Tese
Despertou o nosso tino

“Crônicas de uma sociedade líquida"
Obra em preparação
Coletânea de ensaios
Pelo mestre de Milão
Escritos em L'Espresso
Com boa elaboração

Lançou "O Nome da Rosa"
Com fama internacional
Tradução em várias línguas
Referência cultural
Foi filmado por Annaud
Sétima Arte magistral

Prêmio Médicis, Prêmio Strega
Vasto reconhecimento
Doutor em sabedoria
Archote no pensamento
Alquimista da escrita

Reluz o conhecimento.

TORQUATIANA

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)

Anjo louco renascente
Anjo barroco cigano
Netuno do oceano
Sertanejo universol
Torquato fenomenal
És poeta soberano

Desfolhaste a bandeira
Da manhã luz tropical
Estrela d'alva serena
Vespertina musical
Ritmaste a nova era
Iluminando o carnaval

Combateste o arcaísmo
O modismo, a opressão,
Ao morrer eternizou-se
Sem medo da repressão
Foste vítima da tortura
Da angústia da razão

Antropófago criativo

MultiArtista criador
Mago do tropicalismo
Morreu de arte e amor
Morreste abandonado
Pelo sistema jogado
No precipício da dor...

GALÁXIAS (2017)


(arte computacional)