sábado, 1 de julho de 2017

JARDIM (2017)

Por Paccelli José Maracci Zahler 



1ª ANTOLOGIA DA ATL


Gustavo Dourado e Paccelli M. Zahler
33ª Feira do Livro de Brasília - 2017

(arte: Paccelli M. Zahler)

1ª ANTOLOGIA DA ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS - ATL



É uma honra para mim, enquanto presidente da Academia Taguatinguense de Letras (ATL), Patrimônio Cultural, Material e Imaterial do Distrito Federal, trazer a público, para comemorar os 31 anos de nosso sodalício, a I Antologia da ATL, com edição da bem-conceituada e experiente jornalista e escritora Maria Félix Fontele, projeto gráfico e revisão de Gustavo Fontele Dourado e capa do mestre Toninho de Souza, um dos mais importantes artistas contemporâneos.
Esta seleta destaca a obra de mais de cem autores, entre acadêmicos titulares, honorários, correspondentes, beneméritos, colaboradores e eméritos, reunindo criadores de várias idades, dos 12 aos 90 anos, numa publicação única e inovadora. Verdadeiro marco para a nossa academia.
Sinto-me feliz em deixar significativo documento histórico para a posteridade da literatura brasileira. Além da participação dos acadêmicos da ATL e de autores contemporâneos, tenho o prazer de publicar poemas inéditos em livro, de escritores renomados, os quais foram cedidos para o projeto Poesia no Ônibus, coordenado por mim nos anos de 1995 e 1996, quando fui assessor de Literatura da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Assim, publicamos, pela primeira vez, poemas originais de Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Décio Pignatari, tornando-os bens acessíveis ao público e aos pesquisadores. Outro texto inédito trazido à luz do conhecimento dos leitores é uma carta de Luís da Câmara Cascudo, ícone da cultura brasileira, saudoso membro da Academia Brasileira de Letras.
Estamos cientes de que esse trabalho vem enriquecer a história da Academia Taguatinguense de Letras e ampliar, de maneira grandiosa, a nossa participação no contexto cultural do Distrito Federal. O objetivo maior é valorizar a literatura, o livro e a leitura, permitindo que jovens e estudantes conheçam a criação de nossos intelectuais e artistas da palavra, em seus mais diversos níveis, do erudito ao popular.
História - A ATL foi criada em 5 de junho de 1986 por 18 professores e escritores atuantes em escolas públicas do DF. De lá para cá, a instituição construiu sua história calcada na luta pela cidadania e na valorização do enriquecimento intelectual, a liberdade de expressão, a solidariedade e a promoção do livro, da leitura, do saber, das artes e da cultura de um modo geral.
É, sem dúvida, uma das entidades literárias e culturais mais atuantes do Centro-Oeste e, como consequência disso, foi tombada como Patrimônio Cultural, Material e Imaterial, conforme a Lei 5159, de 2013, votada pela Câmara Legislativa do DF, sancionada pelo Governo de Brasília e regulamentada em 12 de junho de 2014, pelo decreto 35.549.
A ATL possui e mantém em sua sede um acervo de mais de 7 mil livros de escritores do Planalto Central. Presença constante em eventos, feiras, bienais literárias e em escolas, com seus projetos e parcerias bem- sucedidas, transcendendo Taguatinga e conquistado o mundo com seus autores e autoras, a serviço da cultura e da cidadania.

Gustavo Dourado
Presidente da Academia Taguatinguense de Letras, Patrimônio Cultural, Material e Imaterial do DF 


CORDEL DA TROPICÁLIA

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)








PROF. ERNESTO WAYNE (MEMÓRIAS)


Por Paccelli José Maracci Zahler, Brasília, DF

O Prof. Ernesto Wayne foi nosso professor de Literatura em 1974. Por essa época, as minhas notas não eram lá essas coisas em Língua Portuguesa. Eu passava raspando e não gostava muito da matéria, pois não conseguia entender os conceitos, e a Gramática era uma tortura.
Quando o Prof. Ernesto Wayne entrou pela primeira vez na sala de aula, eu senti  um frio na espinha.  Seria mais um professor chato, a fazer exercícios com frases difíceis para análise sintática. E depois, chamar aluno por aluno e dar a nota baixa com expressão de triunfo. Puro preconceito!
Já na primeira semana, ele nos ditou umas regras básicas de pontuação e uso de preposições e regência verbal. Creio que dava umas dez folhas de arquivo, escritas com caneta tinteiro Parker 51, abastecida com a tinta Parker Quink azul, comprada na Livraria e Papelaria Previtalli, onde meu pai mantinha uma conta há muito tempo, desde o tempo em que estudara no Colégio Estadual “Carlos Kluwe”, que funcionava no atual Palacete Pedro Osório.
Depois, ele nos mandou ler “O Guarani”, de José de Alencar, e fazer uma resenha. Comprei um caderno de papel almaço pautado e fiz a tarefa. Entreguei-a na aula seguinte, morrendo de medo de levar nota baixa.
Para minha surpresa, o Prof. Ernesto Wayne leu e me deu 10. Foi o primeiro 10 em Português da minha vida.
A tarefa seguinte foi ler “Memórias de Um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida; “Iracema”, de José de Alencar;  “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Alienista”, de Machado de Assis; e poesias de Castro Alves, do que eu me lembro.
No caso de Castro Alves, ele propôs um desafio – fazer um trabalho sobre o mais belo verso do poeta baiano.
Eu me lembro de ter pesquisado bastante e encontrei, em um livro editado pela Biblioteca do Exército – Bibliex, cujo título o tempo apagou, mas tratava-se de uma análise da vida e da obra de Castro Alves, que o verso mais belo verso era: “Auriverde pendão da minha terra”, do poema “O Navio Negreiro”.
Levei feliz o trabalho para o Prof. Ernesto Wayne, na certeza de receber mais uma nota alta. Para minha frustração, ele leu e me disse que estava errado, que o mais belo verso de Castro Alves era “Que a brisa do Brasil beija e balança”. Levei nota baixa. Tentei argumentar, mostrei o capítulo do livro que pesquisei, mas o Prof. Ernesto Wayne foi irredutível – o autor estava errado. E a nota continuou baixa.
Apesar da frustração, isso não me desestimulou,  muito pelo contrário. Graças às aulas do Prof. Ernesto Wayne, eu adquiri gosto pela leitura e pela Literatura nacional. Após 1974, eu passei a ser um leitor voraz. Acabei lendo toda a obra de José de Alencar, todas as poesias do Castro Alves, todos os livros do Fernando Sabino e muitos outros, e comecei a escrever contos, crônicas e poesias, guardados a sete chaves em meus diários.
Como passei a tirar notas boas em Português, que era a pedra no meu sapato, pois me saía bem nas outras matérias, acabei recebendo o Troféu “Aluno Distinção - 1976” do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, conferido pelo Círculo de Pais e Mestres daquele educandário, no final do Segundo Grau, em 29 de novembro de 1976.
Quando vim para Brasília, DF, em 1982, embora não escrevesse diariamente como de hábito, eu não parei.
Em 1991, participei de um Concurso Nacional de Poesias do Grupo Brasília de Comunicação e ganhei uma Medalha de Prata. Veio um Concurso Nacional de Contos e ganhei uma Medalha de Bronze, seguidas de muitas outras em poesias, contos e crônicas. A partir daí, passei a desenvolver uma atividade paralela – a literária.
Em 1997, fiquei muito triste com a notícia do passamento do Prof. Ernesto Wayne pelo jornal Minuano, via internet. Desde 1974 eu não o via, mas tinha notícias da sua atividade literária por meio de algumas edições antigas do jornal Correio do Sul, que amigos e parentes me mandavam. Eu estava radicado em Brasília, DF, e não conseguira expressar o meu agradecimento a ele.  
Graças ao Prof. Ernesto Wayne e ao gosto pela leitura e pela escrita que ele, com a sua didática, incorporou em mim, acabei sendo convidado a integrar associações e academias literárias, dentre elas a Academia de Letras do Brasil, Seccional Distrito Federal – ALB/DF, Cadeira nº 09. Na hora de indicar o Patrono, não tive dúvidas – o Prof. Ernesto Wayne, com a minha eterna gratidão por desenvolver em mim o gosto pelas Letras.

A VELHA AMARRADA AO BURRO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

Acontecia, outrora, aos médicos da província, cada uma, que nem ao mais levado mafarrico lembrava.
Fernando Namora, narra, com a graça que lhe era peculiar, as suas aventuras, em: “ Retalhos da Vida de um Médico”.
E muitas pitorescas e engraçadas historietas, se contam, desses humildes “ João Semanas”: - verdadeiros heróis, que alcançavam “ milagres” com os escassos recursos que dispunham.
Ora, havia nesse tempo, jovem médico, com consultório montado no centro da cidade de Bragança, considerado e respeitado, por todos os brigantinos.
Suas curas, espampanantes, espalharam-se por todo o distrito, desde Bragança até a terras de Miranda, porque não havia maleita, que não sarasse, nem mal que não passasse.
Tinha o jovem doutor, tia, velha, teimosa e rabugenta, que sofria de graves males, que seriamente a atormentavam. Mas – apesar dos rogos, – recusava, peremptoriamente, ir ao médico.
Os familiares andavam deveras preocupadíssimos. Como demove-la da contumácia?
À Vila não queria ir. Também o médico, que ai clinicava, estava tão ancilosado, que mal conseguia diagnosticar a mais leve enfermidade.
Os desconfiados aldeões, preferiam as antigas mezinhas das avós, ou a arte mágica de bruxas da região. - Por sinal, poucas e ignorantes, e tão néscias como os rústicos campesino, - do que ir à Vila.
O que fazer, então?, já que a velhinha piorava a olhos vistos?
Após muito matutarem e altercarem, entre si, os parentes da velha casmurra, assentaram encetar a árdua e perigosa viagem, por vales e montes e caminhos escabrosos, até Bragança. Terra grande, onde havia hospital e vivia o sobrinho (?) da enferma, que granjeara reputação de “ sapiente”.
Mas como, se a velha não queria?! …
Nessa recuado tempo, não havia quem tivesse automóvel - nem na aldeia, nem, talvez, no concelho. - O remédio era transportá-la de burro – animal pachorrento e amigo de fazer vontades.
Mas como convencer a velha?; se não queria sair de casa?
Acordaram, por unanimidade, chamar dois valentões, que agarraram e amarraram a mulher, com grossas cordas, à albarda, coberta por velha e surrada liteira.
Bem segura e bem atada, lá foi a nossa velha, bracejando e chorando, até à Praça da Sé, e da Praça até, à porta do consultório do famoso médico, onde arreataram o jerico,
Estava o clínico, de estetoscópio na mão, a auscultar conscientemente o peito de respeitosa idosa, quando escuta grande alarido, que subia da rua. Algazarra infernal, chinfrinado endiabrado, à mistura de muitos guinchos, berros e vozearia.
“ O que seria?!” – Pensou, atónito, o jovem médico.
Esclareceu-lhe a curiosidade a solicita empregada, que entrou afogueada no consultório, explodindo num misto de surpresa e indignação:
- “ Senhor doutor: Está uma mulher, a gritar e a estrebuchar, amarrada a um burrico! …e muita gente à volta! … Dizem que é tia do Senhor doutor!!! …”
- “ Pois vá dizer: que não sei quem é. E mande-os embora…Não atendo ninguém que venha amarrado a um burro! …”
Não houve outro remédio, apesar dos rogos e altercações, senão regressarem à terra, com a velha amarrada, e mais séquito de festiva garotada, até ao Loreto, que em risos e chalaças, galhofavam com a grotesca e hilariante cena.
Mais tarde, parentes do jovem médico, diziam, entre si, e para quem os queria ouvir, com olhos de indignação cravados no céu:
_ “ Parece impossível! Ter vergonha da tia! … Sangue do seu sangue! …”
E os aldeões, que os ouviam, repetiam, com cibinho de ira, sacudindo negativamente a cabeça:

- “ Vão estudar para a cidade. Ficam ricos, e não querem saber dos pobres! … É para isso que uma mãe cria o filho! …”

TORQUATIANA E UM POEMA PARA BELCHIOR

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)